segunda-feira, 15 de novembro de 2010

HISTÓRIA DOS ASSENTAMENTOS IRENO ALVES DOS SANTOS E MARCOS FREIRE

O Assentamento IRENO ALVES DOS SANTOS foi criado no ano de 1996, com 900 famílias assentadas e inclui as comunidades de Primeira Conquista (Sede do Assentamento), Arapongas, Nova Santa Rosa, São Francisco, Juriti, Alta Floresta (que no início recebeu o nome de Centrão, depois foi mudado pela comunidade para Alta Floresta), Água Mineral (Irmã Dulce), Boa Esperança, Nossa Senhora Aparecida e Campos Verdes.

No ano de 1997 foi conquistado o ASSENTAMENTO MARCOS FREIRE, por 601 famílias excedentes do Assentamento Ireno Alves dos Santos e inclui as comunidades Paraíso, Campos Verdes, Quatro Encruzo, Alto Alegre, Centro Novo, Camargo Filho, Santa Luzia, Aliança, Apra, Cristo Rei, Nova Aliança, Água Morna e Alto Água Morna.

“Na madrugada de 17 de abril de 1996, mais de 3.000 famílias do MST ocuparam o latifúndio da Fazenda Giacomet-Marodim, em Rio Bonito do Iguaçu. Era o início de uma luta de dois anos de acampamento até se tornarem assentados. A desapropriação dos 26 mil hectares da fazenda aconteceu em 1998, quando 1.501 famílias foram assentadas. Os dois assentamentos são divididos em 27 comunidades, com centros comunitários e espaço de lazer. Antes das famílias Sem Terra ocuparam a fazenda Giacomet o município de Rio Bonito do Iguaçu tinha pouco mais de cinco mil habitantes, hoje esse número se multiplicou se transformando em um dos maiores assentamentos do Brasil... e essa história segue... e Rio Bonito do Iguaçu cresce!”

No início de 1996 havia no Brasil aproximadamente 22 mil famílias acampadas. Durante o ano foram realizadas mais 176 ocupações, que mobilizaram 45.218 famílias em 21 estados. Foi um recorde na história do MST. A média era de 50 ocupações anuais com mais de 16 mil famílias. Nos dados acima estão incluídas as famílias que se acamparam em Rio Bonito do Iguaçu.

O início da vinda das famílias para o acampamento foi dos dias 25 de março a 16 de abril de 1996, vinha gente de diversas regiões e todos os que chegavam era cadastrados e aceitos. Segundo levantamento realizado pela coordenadoria geral da época, as famílias acampadas vieram de sessenta e dois municípios diferentes, tinham dezesseis tipos de religiões e culturas das mais variadas possíveis. Também vieram de dois acampamentos pequenos já formados, um em Saudade do Iguaçu e outro em Laranjeiras do Sul, que se reuniram e formaram um grande acampamento.

Aproximadamente 3048 famílias que faziam parte do MST se acamparam em 1996 na BR 158, entre Rio Bonito do Iguaçu e Laranjeiras do Sul. Esse acampamento foi considerado o maior da América Latina. Tinham objetivo de conseguir a posse da terra do latifúndio da Fazenda Giacomet Marodim, formando os assentamentos Marcos Freire e Ireno Alves dos Santos. Começou a partir daí uma nova etapa na história deste pequeno Município, que muda toda sua estrutura para atender quatro vezes mais pessoas do que o número de habitantes que possuía.

O pensamento inicial em formar um grande acampamento de Trabalhadores Rurais Sem Terra no Município de Rio Bonito do Iguaçu no ano de 1996 iniciou com o cadastramento das famílias que demonstravam a intenção de trabalhar na agricultura, conquistando as terras para sobreviver.
Á primeira vista o acampamento parecia ser um ajuntamento desorganizado de barracos, mas possuía determinadas disposições conforme a topografia do terreno e as condições de desenvolvimento da resistência ao desejo e das perspectivas de enfrentamento com jagunços. Nesses espaços faziam plantações pequenas (hortas), farmácia improvisada, escola, local de assembléias, etc.

O acampamento era um espaço e tempo de transição na luta pela terra, com realidades em transformação, espécie de materialização da organização dos sem terra e traziam em si os principais elementos organizacionais do movimento. Formavam espaços de lutas e resistências e as ações de ocupar e acampar interagiam nos processo de espacialização e territorialização.
Muitas famílias sentiam bastante medo, pois viam na conquista da Fazenda Giacomet muitas dificuldades por vários motivos: devido às milícias armadas, já havia tido outras tentativas de ocupação sem sucesso anteriormente em meados dos anos 80, algumas famílias já haviam participado de outros acampamentos e tinham sido despejadas. Muitos se sentiam alegres por estarem se encaminhando para conquistar uma nova vida no campo, produzir e ter uma vida digna.

Os sentimentos eram muito diferentes, muitas e variadas demonstrações de emoções aconteciam e a ansiedade era geral. O que fortalecia era muita garra e determinação, repassada pelos coordenadores aos acampados.
Muitos integrantes do acampamento já haviam participado de outros movimentos como o MAB e também de organizações sindicais em diversos lugares. Tinham coragem e muita garra para vencer os desafios, não deixando que as dificuldades prevalecessem. Nesse sentido, relata uma liderança do assentamento:

“Ninguém vai morar embaixo de uma lona preta porque gosta, vai porque têm planos e expectativas para o futuro, buscando estrutura para a família. Eu fui incentivado por companheiros, a princípio não tinha interesse de vir, mas depois acabei indo e gostei, foi onde acabei me aprofundando, fazendo alguns estudos entendendo assim sobre a reforma agrária.”

Como forma de organização do acampamento os Sem Terra criaram comissões e equipes. Participaram famílias inteiras ou parte de seus membros. O objetivo das comissões era dar condições básicas para a manutenção das necessidades nas áreas da educação, saúde, segurança, negociação, trabalho, alimentação, etc. Também trabalhavam fora do acampamento para se manter e vendiam sua força de trabalho como bóias frias nas propriedades que conseguiam serviço.

Nas assembléias realizadas no acampamento era discutida a forma de organização e o comportamento das pessoas, tinha regras, normas e as famílias que achavam que se enquadravam eram todas aceitas. Foram organizados grupos de até trinta famílias cada. Esses grupos eram organizados de diferentes formas: por região, por município, por conhecidos, etc. De cada grupo se tirava um coordenador, que tinha a tarefa de organizar e informar o coordenador geral, que era responsável pela infra-estrutura necessária que o acampamento tinha que ter.

O líder geral que coordenava as decisões de todos os grupos no acampamento era o senhor Ireno Alves. Ele veio a falecer num acidente automobilístico e o primeiro assentamento recebeu seu nome para homenageá-lo. O Padre Afonso era outro líder, ele passava muita esperança através de textos bíblicos, falando das passagens para a terra prometida dos povos de Moisés e Abraão, passando aos acampados grande fé e esperança.

Tendo como base a posse da terra, para nela trabalhar e tirar seu sustento, o acampamento da BR 158 foi lugar de mobilização constante. Além de espaço de luta e resistência também o espaço era interativo comunicativo, fazendo periodicamente análises da conjuntura da luta. As ações contaram com o apoio das articulações políticas, e lideranças do Movimento, procurando mudar a conjuntura para desemperrar o processo de negociação.

A maior parte das famílias vinha com as crianças, que dali faziam seu lar: ajudavam os pais nos afazeres domésticos, brincavam e estudavam. A foto, que não acompanha nome, só é esclarecido mais tarde ser de Juceli:
Retrato de menina sem-terra Juceli à margem da rodovia estadual PR-158, que liga Laranjeiras do Sul a Chopinzinho, no Paraná. Ali ficaram reunidas vários meses, mais de três mil famílias à espera da ocupação das terras, no Paraná em 1996." . "... As condições de vida são as mais rudimentares; falta tudo: água, alimentação, instalações sanitárias, escola para crianças, assistência médica, etc....os desertados da terra alimentam a esperança de melhores dias... (Sebastião Salgado, 1996)

Sebastião Salgado retratou crianças acampadas à margem da BR 158, entre os Municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Laranjeiras do Sul em 1986.Essas crianças estavam acampadas com suas famílias, se abrigavam em barracos de lona preta, ficando um longo período à margem da BR brincando e observando os carros passar, com grande situação de risco de acidentes e também de desnutrição devido à rotina que enfrentaram cotidianamente.

Quando as negociações chegaram ao impasse, aconteceram diversos conflitos violentos e até mortes. Muitas famílias desistiram nesta época por uma série de motivos, principalmente pela falta de perspectiva ocasionada pela demora em assentar-se e pela violência dos despejos e dos jagunços.
As experiências no acampamento da BR 158 marcam a história de vida dos Sem Terra que por ali permaneceram por um longo tempo, enfrentando frio, fome, chuva e condições precárias de falta de higiene, saindo até o “Buraco”, indo até o “Portão” para depois irem até os lotes de terra.

A rotina do dia a dia era dividida por tarefas e setores. As crianças, por exemplo, se envolviam com educação e brincavam. Mesmo não tendo estrutura necessária, foi conseguido com a defesa civil construir barracões com lona e nesse local funcionavam escolas para as crianças estudarem.

Aos coordenadores eram dadas as tarefas de organizar, participar de reuniões, palestras e discussões referentes ao acampamento e decidir as estratégias a serem tomados. As pessoas ligadas à área de saúde discutiam sobre saúde, e assim sucessivamente. Foram feitas hortas comunitárias, onde produziam temperos, verduras e hortaliças que nasciam rápido. Como era em abril, não era época de produção, pois nessa região se planta nas lavouras a partir de agosto e setembro, então não se produzia nessa época.
O grupo de mulheres se preocupava em organizar as próprias mulheres em seus afazeres cotidianos de organização dos barracos. O grupo ligado a Pastoral da Criança se ocupava da alimentação principalmente para as crianças, utilizando “multimistura”, uma vez por dia, que era uma alimentação diferenciada para que as crianças não tivessem anemia.
Para sobreviverem muitas famílias buscavam recursos como alimentação e remédios junto a seus parentes, conhecidos, nos seus locais de origem. Também foram feitas coletas no município, em municípios vizinhos, nos assentamentos, era tudo reunido num local e distribuído para as famílias que tinham mais necessidade. Foi também conseguido através do INCRA a cesta básica do governo, que tinha alimentos básicos.

Era repassada a população que os Sem Terra eram vilões e marginais, não sendo bem aceitos, por acharem que essas famílias estariam dando um passo errado, invadindo esse grande latifúndio.

A falta de estrutura também foi agravante. O município não tinha condições para ofertar o que era necessário, pois aumentou muito a população da noite para o dia e isso gerou muitos problemas como de saneamento básico, saúde, educação, etc. P problema mais grave era o de saúde.

Para solucionar foi usado remédio alternativo natural, chá de cidreira, macela e jaguarandi, muitos adultos sofriam com problemas de saúde e diversas crianças morreram, até por terem vindo já desnutridas e doentes para o acampamento e não acharem recursos para se recuperar. Nos primeiros dias faleceram dezesseis crianças. Através da Pastoral da Criança que forneciam sopas com nutrientes necessários, foram feitos tratamentos e aos poucos foi se controlando e recuperando a saúde dessas crianças.

Constatamos a chegada no Portão, analisando os escritos abaixo :

Era impressionante a coluna de sem terra formada por mais de doze mil pessoas, ou seja, mais de três mil famílias, em marcha na noite fria daquele inicio de inverno no Paraná. O exercito de camponeses avançava em silencio quase completo, apenas ouvia-se os ruídos surdos dos pés que tocavam o asfalto. Pelo rumo que seguia a corrente não era difícil imaginar que o destino final fosse à fazenda Giacomet, um dos imensos latifúndios do Brasil com 83.000 hectares: um absurdo de terra. Quando chegaram lá, o dia começava a nascer, a madrugada estava espessa na serração que, pouco a pouco, foi se deslocando da terra, sob o efeito da umidade do Rio Iguaçu, que corre ali bem próximo. Pois o rio de camponeses que corriam pelo asfalto noite adentro ao desembocar defronte à porteira da fazenda, pára e se espalha como as águas de uma barragem. As mulheres e crianças são logo afastadas para o fundo da represa humana, enquanto os homens tomam posição bem em frente à linha imaginaria para o eventual confronto com os jagunços da fazenda. Ante a inexistência de reação por parte do latifúndio, os homens da terra arrebentam o cadeado, e a porteira se abre, foices, enxadas e bandeiras se erguem na avalanche incontida das esperanças nesse reencontro com a vida e o grito reprimido do povo sem terra ecoa na claridade do dia a dia: Reforma Agrária: uma luta de todos! (Sebastião Salgado, livro Terra, companhia das letras – 1997).

A trajetória dessas famílias foi a seguinte: de dois acampamentos para a BR 158, próximo a Laranjeiras, foram até o Buraco, até o Portão e depois para os lotes de terra. O local denominado “Buraco” recebeu este nome por ser localizado numa baixada, ao lado da BR 158, encostado ao Rio Xagu e cerca de 2 km do centro do Município de Rio Bonito do Iguaçu, ficando este local dentro da Fazenda Giacomet Marodim, que atualmente é Fazenda Araupel.

Dona Lori, minha mãe, que morava e ainda mora a alguns metros da BR 158, relata que estava dormindo e acordou com um barulho muito grande. Era como ser fosse uma boiada solta, ficou preocupada e saiu verificar. O asfalto não aparecia, estava coberto de pessoas por todos os lados, marchando em direção ao “Buraco”. Disse que ficou com muito dó de ver as famílias com filhos pequenos nos braços e trouxas nas costas. Não conseguiu mais dormir e no dia seguinte soube da ocupação, que foi noticiada por rádio, jornal e televisão.

No período que permaneceram no Buraco, os acampados tiveram algumas conquistas, porém modestas, perante o objetivo principal: a conquista da terra. Foram dados os primeiros passos das negociações entre o INCRA e a Giacomet que culminou depois com a desapropriação da primeira parte da área (Assentamento Ireno Alves dos santos). Na foto abaixo podemos verificar os barracos do acampamento na entrada do Portão, sob uma densa nuvem de fumaça que pairava sobre o ar, vinda do fogo que era feito para cozinhar os alimentos e aquecer as pessoas.

Outro acontecimento importante foi um ato político que contou com a presença de várias personalidades, liderados por Luís Inácio Lula da Silva (atualmente Presidente da República), deputados, senadores, ministros, governadores, etc. Os principais objetivos do ato eram chamar a atenção da opinião pública e pressionar o governo para a desapropriação da fazenda. Após discussão com a direção estadual, regional e do acampamento as famílias decidiram em assembléia fazer uma grande roçada, para pressionar as autoridades e por questão de sobrevivência, pois as famílias precisavam produzir para se alimentar e ainda o local onde estavam, por ser úmido e de pouca circulação do ar, trazia graves problemas de saúde às famílias.
Fez-se então a grande roçada ao redor da ocupação e foi feita a apreensão de sete guardas do Portão (entrada da fazenda) no dia 26 de junho de 1996, por 150 Sem Terras que faziam parte da segurança do acampamento. Foram também apreendidas com os guardas e entregues várias armas de grosso calibre com munição e colete a prova de balas às autoridades de Laranjeiras do Sul.

A mudança do Buraco para o Portão se deu devido a necessidades emergenciais, pois o Buraco era uma área muito fria, com acúmulo de pessoas. Havia muita fumaça e as pessoas estavam tendo problemas de saúde muito graves e crianças morrendo. Então parte delas deslocaram o acampamento para o Portão, que era o principal acesso de entrada para a Fazenda. O local da Sede da fazenda Giacomet está retratado em foto aérea a seguir. Esta foto foi cedida pela Administração Pública Municipal.

Houve tentativas de negociação da empresa Giacomet Marodim com o Incra. Devido à necessidade de produzirem para sua subsistência, quem ainda tinham permanecido no Buraco foi para a Sede da Fazenda Giacomet Marodim, que é hoje a Sede do Assentamento Ireno Alves dos Santos. Lá tinha estrutura de casas e armazéns.

O período e as mudanças de locais dos acampamentos ocorreram mais ou menos da seguinte forma:
•Na BR o acampamento permaneceu de 25 de março a 17 de abril e então foram para o Buraco;
•26 de junho parte das famílias se dirigiram ao Portão;
•29 de outubro quem estava no Buraco e no Portão mudaram para a Sede, para realizar as plantações.

Nos acampamentos anteriores não era permitido ter animais como galinhas, porcos, gado, etc, quando foram para a Sede, buscaram os animais, pois ali oferecia condições de mantê-los e alimentá-los, usufruindo também de seus benefícios. Após a chegada na Sede, foram organizados 90 grupos de trabalho, com coordenador e vice.

Foram plantadas somente as terras em cultivos, aproximadamente 2500 hectares, com soja, milho, arroz e feijão. Ao redor dos barracos foram organizadas hortas pela maioria das famílias. O começo da produção foi um passo importante rumo ao objetivo principal que era a conquista da terra.
O Jornal Correio da Cantuquiriguaçu, em 07/08/1997, relatou sobre o acampamento dos trabalhadores sem terra, falando sobre a persistência de centenas de famílias que estavam acampadas a margem da BR entre Rio Bonito do Iguaçu e Laranjeiras do Sul. Relatou também que seriam assentadas cerca de 900 famílias e as demais ficariam remanescentes, o que estava gerando um grande conflito entre os acampados, que queriam que todos se assentassem.

Era grande o número de acampados à beira das rodovias “Em todo o Paraná existem hoje 97 áreas ocupadas por Sem Terras, com um total de nove mil famílias envolvidas. Paraná está entre os estados que tem maior número de ocupações.” (Jornal Correio da Cantuquiriguaçu. Edição 196, folha 01, agosto de 1997).

Foram realizados atos políticos na Prefeitura Municipal. No dia 01 de dezembro de 1997, integrantes do MST, pessoas acampadas do Paraíso e outros aliados ocuparam a Prefeitura Municipal. Os atos políticos anteriores haviam sido realizados em frente ao Paço Municipal. Esse grupo reivindicava, conforme publicação no Jornal Correio do Povo de Laranjeiras do Sul, em 14/12/1997:

Uma ambulância para o novo acampamento (Paraíso), repasse de remédios por parte da Secretaria Municipal de Saúde, posto telefônico, intermediação do prefeito Leonel Schmitt junto ao Banco do Brasil e INCRA para a liberação imediata de recursos nas áreas de Fomento, alimentação e custeio das 900 famílias á assentadas, desapropriação de mais 15 mil hectares de terra, infra-estrutura nas áreas de saúde, educação, estrada e transporte para uma nova ocupação que havia sido no município, e também exigiam que o prefeito e os secretários enviassem uma carta de apoio ao trabalho realizado pelo Pároco do município solicitando sua permanência nos trabalhos da Paróquia.

No segundo dia de ocupação, o Prefeito e os Vereadores dialogaram e juntamente com representantes do MST, Promotoria de Justiça de Laranjeiras do Sul, polícia militar e Secretários do Município discutiram as reivindicações dos Sem Terra que tiveram os seguintes desfechos: sobre a ambulância o Prefeito disse que era uma responsabilidade do Governo do Estado, mas já haviam agendado uma reunião com o Secretário de Saúde do Estado. Quanto à distribuição de medicamentos, o Secretário de Saúde do Município alegou que existem alguns remédios que só podem ser liberados por médicos e que a outra parte está sendo repassada. Ficou combinada a possibilidade de contratar um médico exclusivo para os acampados. Nas reivindicações ligadas ao INCRA, o Prefeito prometeu se empenhar e afirmou que já tinha uma audiência marcada com o INCRA em Curitiba.

Neste encontro foi reforçada a importância do diálogo, foi acertado que quando houvesse necessidade as soluções seriam buscadas em conjunto, em uma mesa redonda de conversações. Como os resultados da audiência não foram os esperados, as ocupações continuaram.

Em 04 de dezembro, cerca de 400 famílias ocuparam as dependências do Banco do Brasil em Laranjeiras do Sul, por não ter agência em Rio Bonito do Iguaçu, reivindicando repasse de recursos às famílias assentadas e recursos para reconstruir a unidade da COAGRI em Laranjeiras do Sul, que tinha sido destruída à alguns dias por vendaval. No dia seguinte, pelo mesmo motivo, foi ocupada também a Agência Banestado de Laranjeiras do Sul, e essa ocupação durou todo o dia e o banco foi desocupado no final da tarde, quando parte das reivindicações foram atendidas.

Esses e muitos outros fatos marcaram para sempre a vida dessas pessoas, histórias que nos emocionam, que mostram a persistência, a garra e a luta. Entre estes fatos, destacamos alguns acontecimentos que estão citados abaixo, por trazerem presente as dificuldades de sobrevivência das famílias durante o acampamento:

O fato que mais me marcou, foi um dia que um homem estava trabalhando de guarda do grupo, passou um bichinho e ele atirou, todo mundo se revoltou pelo susto tomado por acharem ser uma invasão aos barracos feita por pistoleiros. Fiquei com muito medo de morrer ou matarem algum filho meu, tive até vontade de desistir. (Veronica – Água Mineral)

Foram vários os momentos marcantes, mas além da ocupação, que é um dos principais fatos, teve mais um que me chamou atenção que foi a morte do companheiro Ireno Alves, porque ele era o principal coordenador nosso e faleceu em um acidente de carro no dia 25 de dezembro, estava indo visitar o pai e aconteceu o acidente. Ele era a pessoa que unia os grupos, porque existia muito atrito entre os componentes e ele chegava com muita conversa sempre resolvia tudo. Cheguei a pensar se nós iríamos dar conta, , como fazer com que as pessoas cumprissem os regulamentos, sendo que se não cumprissem eram expulsas e mandadas embora. Acabou sendo minha responsabilidade, o que não era fácil. (Danilo – Sede).

Nunca vou esquecer o momento que por falta de assistência médica, até mesmo um pouco de água potável, duas crianças no mesmo dia vieram a falecer, sendo as duas veladas juntas em barraco de lona. (Enio – Arapongas).

A gente tinha como alerta um foguete, se acontecesse dos guardas chegarem. Se o foguete estourasse a gente tinha que dar um jeito com as crianças de se agasalhar. Na terceira noite estourou (não foi um foguete,) mas à noite, mais de três da manha, a gente estava dormindo, acho que foi um cara da segurança que dormiu e acabou dando um tiro para cima, que acabou assustando todo mundo. Se saía do barraco, levava trompada de gente correndo, se ficava dentro, não tinha proteção, ficamos com muito medo. (Dalíria – Alta Floresta).
O dia do decreto da desapropriação. Em 16 de Janeiro de 1.996 teve um fato que marcou todas as pessoas a morte de Vanderlei das Neves e José Alves dos Santos por funcionários da empresa na época e em seguida saiu o decreto de desapropriação, então um dia clima de velório e no outro de comemoração, foi o que mais me marcou. (Sérgio – Centro Novo).

Complementando a citação acima, segundo Monteiro (2001) “Era 16 de janeiro de 1997, um dia de sol, um grupo estava trabalhando dentro da área em negociação quando foram vítimas de emboscada de 10 pistoleiros e seguranças da fazenda. Morreram o jovem Vanderlei das Neves, 16 anos, e José Alves dos Santos, 34 anos”. (Assentamento Ireno Alves dos Santos –TTrês Anos Fazendo História, 1999).

Segundo depoimentos de pessoas acampadas que estavam juntos e conseguiram fugir, os Sem Terra após serem atingidos por balas foram arrastados 100 metros para dentro da mata. Foram encontrados nos corpos projéteis de pistola 357 e no local do crime havia cápsulas de Fuzil AR15. À partir deste acontecimento a Giacomet muda de nome e passa a se chamar Araupel. Essa estratégia se deu por que o assassinado dos Sem Terras repercutiu em todo o país e no exterior. Isso acabou denegrindo a imagem da empresa que exportava celulose .

Também no dia 16 de janeiro de 1997 saiu o Decreto de desapropriação de 16.800 hectares de terra. No início do acampamento três mil e quarenta e oito famílias cadastradas, mas no final não era mais esse número, pois muitas famílias foram desistindo. O INCRA fez um cadastramento de todas as famílias existentes. Tinha também adotado alguns critérios de que famílias tinham direito de serem assentadas. O próprio INCRA fez uma seleção de famílias através de critérios internos, mas os assentados também ajudaram a contribuir com esses critérios, que contemplava pessoas que nunca tinham se assentado, que tinham bom relacionamento, que participavam das discussões e que mereciam ser contempladas com a terra.

Havia, nesse período, três questões importantes acontecendo ao mesmo tempo: a desapropriação de parte da área, o assassinato dos Sem Terra e quem ficaria de fora da primeira turma a ser assentada, uma vez que com a quantidade desapropriada daria para assentar apenas 900 famílias. A luta não parava por ali, era preciso ajudar os excedentes.

Um dos critérios adotados pela coordenação na época é que não concordavam com o assentamento se todas as famílias não fossem assentadas, demonstrando assim companheirismo e respeito pela luta coletiva, mas como saiu o decreto de desapropriação e as novecentas famílias tinham que ir já para os lotes, houve uma discussão interna e as famílias que fossem contempladas iriam contribuir com as excedentes, inclusive repartindo os primeiros créditos que era para alimentação e ferramentas com as que tinham ficado para o segundo momento.

O INCRA deu a liberdade de escolha dos lotes pelos grupos. Dividiu os talhões. Puderam escolher entre área de capoeira e mecanizada. Quando houve área com vários grupos interessados foi instituído o critério de sorteio. Assim, foram para os lotes de terra, mas muitos sonhos ainda esperam realizar:

O meu sonho é ter a minha casa feita de madeira, já tenho, mas é de material e pequena, mesmo já sendo difícil conseguir madeira por aqui espero ainda poder realizar meu sonho. (Veronica)

Tem muitas coisas ainda para a gente conseguir. Melhorar a situação financeira, buscar ter mais privilégio desde em festividades e ter mais dignidade na vida das pessoas que aqui vivem. (Sérgio)

Nós sempre sonhamos em ter um assentamento que servisse de modelo, modelo que a gente fala é modelo de produção, organização, trabalhar a cultura e a produção e isso a gente não conseguiu. Várias famílias acabaram desistindo foram embora, veio outros no processo e a gente quer transformar esse sonho de não só ter a terra, mas ter e ser modelo de qualidade de vida e isso ainda não alcançamos. (Enio)

Tem bastante coisa que falta, ainda sonho em dar estudo pra todos meus filhos e acomodar todos eles, é isso que espero. (Dalíria)

Tem várias coisas que ainda desejamos conquistar, como ter todas as estradas cascalhadas, energia para os que ainda não tem, acesso de crédito a todos, regularizar a documentação dos lotes de todos que trocaram ou mudaram de lugar, e também uma outra luta que estamos enfrentando a algum tempo o desafio da universidade popular, que é trazer paro o assentamento, mas especifico na Vila Velha, que é um local centralizado, já estamos negociando com o governo federal através da universidade do Sem Terra de São Paulo, para lá montarmos os cursos de direito, agronomia, engenharia e tudo mais.(Danilo)


Não se abriu mão pelas coordenações de que as famílias excedentes fossem assentadas na mesma área, então cerca de um ano depois saiu a desapropriação de mais dez mil hectares de terra também na Fazenda Giacomet Marodim, que foi suficiente para assentar as famílias excedentes da época anterior. Por isso no Município de Rio Bonito do Iguaçu existem dois assentamentos que estão ligados, com mil e quinhentas e uma famílias, que é o Assentamento Ireno Alves dos Santos com 900 famílias e o Assentamento Marcos Freire com 601 famílias, que têm dois momentos de desapropriação das áreas da Fazenda Giacomet Marodim.
Algumas conquistas que os antigos acampados, hoje assentados, conseguiram através da luta, do esforço e da persistência:

A primeira conquista foi a terra que conquistamos, que era nosso grande objetivo. Muita gente pensava na organização, na luta e na questão geral das coisas, mas quando você vai se envolvendo vê que além da terra, você vai ter o crédito, que acho que foi um ponto que somou para todos. Teve também as conquistas das escolas e da produção de milho, arroz, feijão, leite, carne e pode assim estar comercializando, que no contexto geral é o resultado das conquista e da luta que a gente fez, mas que ainda precisamos melhorar em várias questões. (Sérgio – Centro Novo).

Consegui ter as coisas que queria: minhas vacas de leite, minhas coisas de dentro de casa, pois tinha apenas o fogão e o colchão para dormir. Muitas outras conquistas também consegui. (Veronica – Água Mineral).

Foram muitas conquistas. Um pedaço de terra em primeiro lugar, recursos, amizades e formação das comunidades. (Enio – Arapongas).

Acho que além da conquista da terra, foi conseguido em primeiro lugar a dignidade das famílias, que é ter condição de trabalho, educação e vida justa, teve também a conquista das escolas, comunidades, energia elétrica, São incalculáveis os ganhos que tivemos. (Danilo – Sede)
Após a conquista da terra, muitas coisas se perderam, com a preocupação em principal em produzir, plantar, colher. Foi deixado de lado a garra e a preocupação das pessoas com as situações e faltou união para resolver as dificuldades. Entretanto, muito dessa etapa de vida também ficou gravado na vida das pessoas, conforme relatos a seguir:

Foi um grande sofrimento nossa chegada, estava grávida e tinha medo pois tinha onça, tigre, sofria também para fazer o pré-natal, mas não desistia era bem certinha nisso. Um fato que aconteceu que hoje lembro e acabo até rindo, foi quando meu marido quis que eu fosse dormir no barraco de minha irmã por achar ser mais seguro, acabei tendo que dormir no chão sendo que nosso barraco era alto e se tivesse aparecido algum bicho poderia ter chegado até à porta. Também o sofrimento que tivemos na chegada em nossa tão conquistada terra, derrubamos taquaras, abrimos caminho, foi difícil, mas vejo hoje que tudo compensou e valeu a pena a luta e a persistência. Não me arrependo de nada. (Veronica).
A criação dos dois assentamentos contribuiu para o desenvolvimento da economia de Rio Bonito do Iguaçu. Atualmente os trabalhadores assentados geram mais de 10 mil empregos direitos e indiretos na cidade.

Durante esses anos as conquistas nos Assentamentos são muitas, entre elas se destacam:

Escolas que oferecem educação infantil, ensino fundamental e médio, oferecendo também educação de jovens e adultos e ensino especial, que funcionam nos dois assentamentos, com aproximadamente 2.500 alunos.

Por ano os dois assentamentos produzem em média 500 mil sacas de milho, 50 mil sacas de soja, 50 mil sacas de feijão, 10 mil sacas de arroz, 24 mil litros de leite por dia, chegando a 880 mil litros por ano.

São criados em média 20 mil animais entre: suínos, bovinos e aves, para comercialização e consumo próprio.

Créditos junto ao governo federal para investir nos lotes e estruturar os assentamentos: mais de 2 milhões de crédito em fomento e alimentação, cerca de 4 milhões de crédito habitação e aproximadamente 13 milhões de Investimento do PROCERA e PRONAF e 28 milhões pelo PAC .

Quando a fazenda pertencia a Empresa Giacomet Marodim, a arrecadação do município gerava em torno de 600 mil, mas hoje com os assentamentos a cidade arrecada em torno de um milhão e trezentos mil reais, uma diferença de 500 milhões. O comércio ganha com isso, aumentando a geração de empregos, porque os assentados vendem e compram produtos no município.

Em matéria publicada no Jornal Xagu, de 22 a 28 de janeiro de 2009, ano 4, n. 118, pag. 4, consta que o Assentamento Ireno Alves tem atualmente 917 famílias, mas que em breve vai integralizar o Marcos Freire, por meio de uma portaria do Governo Federal, totalizando mais de 1.500 famílias num único assentamento.

Referência:
GALERA, Inês. RIO BONITO DO IGUAÇU: UM RIO DE HISTÓRIAS. Editora Xagu. 126 p. Rio Bonito do Iguaçu PR. 2009.

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